quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A morte das palavras que repousam na obra

As palavras acabadas morreram. Agora tudo é editável! Morreram as histórias terminadas, as frases finalizadas. Agora tudo é discutível, tudo é debatido e anotado. A literatura já não é arte, o escritor já não é artista. Que escrita é essa a que carece de explicação? 

Um livro é o que é, uma obra acabada, um texto com um fim, com uma mensagem que lhe é inerente. Um livro representa uma história que um escritor quer transmitir, uma mensagem, um significado, algo... Algo que está entre a capa e a contracapa e que não vai para além disso senão no espírito do leitor e nas suas interrogações ou alterações de comportamento. Que livro é esse que é debatido, e alterado, e anotado, e reescrito, e censurado, e explicado? 

Um livro é um livro e nada mais. Não me expliquem uma história, por favor! Se ela carecer de explicação então não merece ser compreendida e muito menos merecia ser lida. Um livro é um livro, uma mensagem de alguém que me chega às mãos sobre essa forma, de um livro. O texto obrificado que vale por esse acabamento finalizado que não pode ser posto em causa, capaz de se fazer perceber de maneiras diferentes a cada leitura. Mediante discussão, explicação e alteração onde está a arte? O texto passa a ser um objeto, um ponto de partida para um debate que não faz sentido a quem o escreveu. A mensagem é do escritor que a escreve e do leitor que a lê. Não serve para escrutínio em praça pública por usurpadores de frases alheias. 

Sobre a escrita do escritor só vale a opinião do leitor, só isso e nada mais. Nem regras nem preconceitos, nem censura nem preceitos. Quem cria a obra é o artista, quem melhor para saber o que deve ou não ser feito? O gosto pessoal é conta de outro rosário, é isso mesmo, pessoal, pessoal e intransmissível. Agora já não há palavras acabadas nem livros fechados. São tudo ficheiros que andam por aí, perdidos em parte incerta. Nunca chegam a ser teus, nunca lhes tocas. Podes perdê-los sem nunca os teres encontrado. Não os podes folhear, levar debaixo do braço, emprestar a um amigo ou namorada, admirar numa estante. Agora já não há livros. São só palavras perdidas por esses computadores. Frases desordenadas que são baralhadas e distribuídas ao calhas, sem uma disposição cuidada na página, preparada ao milímetro a rigor com a história. 

Dizia-se que história e livro não podem viver um sem o outro. É uma capa dura ou mole que faz o livro, é a gramagem do papel que lhe dá alma é o tipo de letra que liberta a mensagem e a deixa voar para além das páginas. As palavras acabadas morreram. Agora tudo é editável!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Choro por dentro

Alguém muito especial na minha vida não pára de me pedir por uma carta de amor. Eu sempre lhe tenho dito que as melhores coisas vêm quando menos se espera. Espero conseguir surpreendê-la pois ela não está à espera de receber esta declaração de amor hoje e muito menos de uma forma tão pública como o meu blogue, mas eu acho que as melhores coisas da vida devem ser partilhadas e por isso aqui vai: Amo-te Mara. Aqui está a tua carta de amor. Espero que a espera se revele proveitosa e que tenha valido a pena!

--- <3 ---

Choro por dentro. Uma angústia terrível assola-me a alma de maneira violentamente subtil e deixa-me indefeso, sem capacidade de reação. Ontem encontrei-te, hoje desejo-te de volta. Será que nunca mais te verei, que foi coisa de uma só vez? Por que são sempre essas que me arrebatam o espírito e me submetem à insaciável vontade de ter mais? Penso que não te posso ter, cruel pensamento para quem te deseja com tanta força. Nunca antes tinha visto tamanha beleza e graciosidade, nem tampouco beijado e abraçado tão bela mulher. Agora que me deito, desejo não estar sozinho, desejo partilhar contigo a minha cama, aninhar-me contigo pela noite dentro. E não consigo adormecer. 

Vêm-me à memória flashes de ti, das tuas feições de cortar a respiração, do teu jeito de te moveres inigualável em subtileza. Será que nunca mais beijarei os teus lábios? Pensamento que me consome qual labareda infernal dentro do meu estômago. Em torno do pescoço, sinto uma corda que se aperta mais e mais a cada momento, tornando-se extremamente complicado respirar. A garganta seca e o olhar vazio, a angústia. Sinto um apelo fortíssimo em deixar tudo e partir ao teu alcance enquanto a tua presença ainda se encontra no meu modesto raio de ação. Desejo ver-te outra vez mas será que algo irá mudar? A angústia não passará, apenas será adiada. Seja hoje ou amanhã, a nossa despedida é inevitável. Eu não pertenço aqui. Parto amanhã para de onde não é certo voltar. De que serve ver-te de novo, saciar a louca vontade de ti? Sei que nunca conseguirei captar-te a essência, guardar-te para mim. Hoje ou amanhã, irás sempre tornar-te numa memória e nada mais que isso. 

Oh, como eu desejo a evitabilidade do inevitável... Se ao menos fosse eu dono do destino, nunca partiria de junto de ti. Serias a tal e assim te trataria. A mulher mais bela que alguma vez conheci, beijei, abracei... E parto no dia seguinte. A diversão que dá lugar à lágrima, o êxtase que dá lugar à angústia. Pergunto-me se sentirás o mesmo, agora que também te deves estar a deitar numa cama vazia. Se ao menos houvesse alguma maneira de prolongar a sensação de te ter junto a mim, captá-la, guardá-la, senti-la sempre que quisesse... Sei que, invariavelmente, a memória acabará por se desvanecer e quero lutar contra isso com todas as minhas forças. Não anseio o amanhã. Não aguardo o futuro. De que serve um amanhã sem o hoje e um futuro desligado do presente? Terei eu algum futuro? Enquanto for hoje, tenho-te em mim, cada gesto e cada olhar marcados na memória. Amanhã não sei. Que surpresas me reservará o destino a que me forçam? Luto para eternizar o hoje, cristalizá-lo num globo de neve que exibo em cima do tampo da minha secretária. Não é fácil… O sol esconde-se, as pálpebras começam a pesar. 

O céu está estrelado, salpicado de inúmeros pontinhos luminosos que aparecem aos meus olhos como puras recordações da mulher que amo. Tenho medo de me esquecer, de te esquecer quando largar o último suspiro. Não deve faltar muito para esse momento. Sei que o teu rosto será a última coisa que verei quando os meus se fecharem hoje. E amanhã? Verei o teu corpo no inimigo anónimo que me trespassará? Choro por dentro. Estes pensamentos consomem-me a alma. Com sorte, nem duro para ver o levantar do sol, morro já hoje, agonizado pelo dilaceramento dos meus interiores. Ao menos sei que partiria a pensar em ti. Tenho medo, nunca to disse mas tenho muito medo. Faltou o tempo para falar sobre estes assuntos, veio o tempo para os vivermos. Um dia parece uma vida mas não oferece o que uma vida tem para oferecer. Os sorrisos que poderíamos ter trocado, os passeios à beira-rio que poderíamos ter dado, os gelados que poderíamos ter comido a meias, as mãos-dadas, os espetáculos, as músicas, os livros, os corpos nus abrigados sob os lençóis… Não houve tempo para fazer tudo isso, apenas para o desejar. Bastou um dia como o de hoje para perceber que nunca antes conhecera a felicidade. Talvez ainda fuja. Talvez ainda passe em tua casa e te furte do mundo para que fujamos juntos desta vida que nos separa. E viveríamos para sempre escondidos, alheados de tudo, privados sequer de ver os carros circular e os prédios altos de cimento a brotar do chão? Tu és nova, não mereces tal sorte, a sorte de um amor libertador que te confinaria ao oculto de uma caverna. Que liberdade é essa? A liberdade de amar enquanto se foge incessantemente? Não te posso desejar tamanho mal quando nem sequer sei se o amor que sinto por ti se materializa na reciprocidade do teu afeto. Acho que nunca o saberei. Lá para onde parto não há serviço de correios. Esta é a primeira e também a última carta que trocaremos, uma carta sem direito a resposta. Quantas vezes na vida não temos o direito de resposta, ou sequer de escolha? 

Vinte e cinco anos desligado deste mundo e o amor escolhe emboscar o meu coração na véspera da minha inalterável partida? Que fado me assiste! Obrigam-me a uma partida sem retorno e, ainda que o houvesse, quando seria? E o que encontraria quando regressasse? Estarias ainda à minha espera ou seria eu condenado à vida sem a tua companhia? Antes a morte! Antes ficar sepultado por lá para onde vou! Espero que esta carta chegue ao seu destino, que chegue até ti e que a guardes. A memória do nosso amor morre comigo, desvanece-se em ti, apenas perpetuada pela tinta deste papel. Guarda-o bem! Que eu não te recorde frente à espada que me há-de perpassar mas que o futuro conserve inscrita a prova irrefutável de que te amo acima de qualquer outra coisa! 

Hoje não consigo adormecer. Vêm-me à memória flashes de ti, das tuas feições de cortar a respiração, do teu jeito de te moveres inigualável em subtileza. A possibilidade inefável de nunca mais vir a beijar os teus lábios… Hoje já não adormeço, amanhã parto para a guerra.

P.S. - Não te preocupes que não vou a lado algum!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Limbo | poema

Limbo. O poema que andei a escrever durante os últimos tempos.
Deixo aqui apenas um excerto pois a versão completa é longa e está guardada para outra ocasião...
Que vos apraz dizer sobre isto?

Limbo.
Odeio o limbo.
A fronteira entre ser e não ser.
O caminho sinuoso da moralidade bafienta
que me arrasta para o pântano do que não quero ser,
do que abomino ser.
Uma linha ténue que não se vê,
que não se toca,
que não se cheira,
que não se sente
e, no entanto, que somos forçados a seguir,
calcando a sua distância com uma pegada certeira
que não admite o mínimo desvio.
O limbo.
Odeio o limbo.
Uma regra estabelecida,
um juízo alheio,
um preconceito.
E somos forçados a segui-lo!
E somos forçados a caminhar ao longo do já trilhado,
uma via rápida entre o certo e o errado,
entre o aceitável e o abominável...
Não poderei eu fazer as minhas escolhas?
Viver ao sabor das minhas próprias decisões,
discernir por onde caminhar.
A linha é reta.
A linha é estreita.
Não há margem para o erro
nem tampouco para o sucesso,
só para o sucesso dos outros,
para o dos que começaram ainda os caminhos não estavam abertos.
Agora são altos os muros erguidos,
que nos obrigam a manter a trajetória linear,
sempre igual a si própria
mantendo-nos sempre iguais,
iguais a nós próprios.
Escondem os prados verdejantes,
a areia dourada e a água turquesa,
as montanhas caiadas de branco no alto do seu pico,
a floresta velha na grossura dos seus troncos
e a jovem na frescura das suas folhas.
Tudo se esconde, oculto.
O caminho possível é pobre na sua estreiteza
e curto no horizonte.
O mundo está lá fora, do outro lado
do lado b da realidade que julgamos una.
Que tristeza a nossa limitação!
Que podridão se instala no interior!
O limbo.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O livro que Eliseu leu - quinta parte

... continuação

Quinze horas. Eram já quinze horas quando olhou para o relógio que trazia preso ao pulso esquerdo. Eliseu espantou-se, tinha chegado ali ao meio dia para almoçar e já eram três da tarde. Nem tinha dado pelo tempo passar. A sua cabeça já não era como antes, estava cada vez mais distraído. Ou talvez o livro fosse assim tão interessante. Interessante o suficiente para o alienar do mundo real, para o mergulhar tão intensamente no imaginário da sua história. 

Eliseu decidiu que era tarde, que já não tinha idade nem disposição para uma tarde passada na esplanada. Levantou-se e arrumou a cadeira. A sua decisão fora tão forte e repentina que se esqueceu de pagar a despesa. E saiu. Morava perto, aliás, morava no quarto andar esquerdo do prédio do café, o estabelecimento onde almoçava todas as quintas-feiras, sempre à mesma hora. Dizem que os hábitos antigos custam a morrer. Eliseu tinha esse hábito. Criara-o pouco depois do falecimento da sua esposa. Nunca falhara uma quinta-feira desde então. O hábito era monótono, sempre igual. Apenas variava nas iguarias que Eliseu escolhia como refeição que, note-se, pecavam claramente na elaboração requintada. 

Apenas cinco anos depois, cinco anos de hábito e de rotina, algo de novo e surpreendente acontecera. Bastara um livro velho e poeirento, esquecido em cima de uma mesa, para criar um acontecimento, algo digno de espanto. Eliseu já não se interessava por muitas coisas na vida. Tudo lhe parecia sem cor, sem sabor, cada vez mais a progredir numa escala de cinzentos para o negrume. Para onde quer que olhasse, Eliseu via o perigo, o negativo, o risco, o desinteresse.

Continua...

domingo, 25 de agosto de 2013

O livro que Eliseu leu - quarta parte

... continuação

Os seus modos voltaram-se a alterar, eram de novo cuidadosos e gentis. Nas páginas, já só as pontas dos dedos tinham permissão para tocar e o dedo mindinho estava de novo entesado, erguido como uma antena que se esforça por sintonizar o relato. Os olhos não despregavam das linhas, as quais seguia com feroz intensidade. O que parecia ser uma simples e relaxada caminhada no parque, veio-se a revelar numa intensa corrida contra o tempo, quase como se o mundo desabasse atrás dele e Eliseu se esforçasse por atingir terreno seguro, a sua salvação. Mas não seria naquelas páginas que Eliseu encontraria salvação, ou paz, ou felicidade, ou qualquer outra coisa de maior que o ser humano tanto deseje e persiga. Entre as linhas daquele livro, já meio desbotadas, espreitava o incerto, a inquietação, a perdição das certezas em que nos habituámos a acreditar.


A história de uma vida comum, uma vivência sem grandes feitos ou particularidades, uma história de amor como há tantas por aí. 


O miolo do livro não tinha novidade, nem originalidade, nem frescura alguma. Histórias como aquelas existem em abundância, sempre existiram, desde que o primeiro dos homens olhou para a primeira das mulheres e se apaixonaram. As páginas daquele velho livro eram o relato de uma velha vida, de uma vida comum como as nossas. Nascer, viver e morrer. Sempre por esta ordem. Aquele livro era sobre viver, sobre a vida, sobre todas as coisas que nos levam a levantar da cama diariamente. Eliseu continuou a ler, quase sem conseguir despregar os olhos de cada página. Já nem o pó  incomodava a sua asma. E o livro continuava com a sua história, escrita em jeito meio tosco. Mas era fluído, o raciocínio mesclava-se bem com o pensamento de quem o lia. Talvez isso só acontecesse com Eliseu, talvez porque achava tudo aquilo familiar, demasiado familiar. Estranho. Nunca antes tinha visto aquele livro, nem lido aquela história, nem sentido aquele cheiro peculiar que tinham as páginas.

Continua...

sábado, 27 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - terceira parte

... continuação

Tal como se previra e Eliseu adivinhara. No seu juízo precipitado, apenas o julgamento da história se viu errado, não era impercetível, nem estranha, nem invulgar. Antes, era bem familiar e acolhedora. Sem saber muito bem como, nem porquê, a articulação daquelas letras feitas palavras formava um conjunto com um significado que Eliseu começava a achar próximo a cada página que passava. 

Como poderia aquele livro, perdido e encontrado, encontrado porque perdido, transportar uma qualquer mensagem capaz de penetrar Eliseu? «Que feitiçaria seria aquela?», pensou ele a determinado momento. Eliseu fechou o livro repentinamente. Tinha abandonado todos os cuidados e mariquices com que tratara aquele velho livro até então. Olhou em redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra; chegou até a virar-se para trás. Quem estaria a observá-lo? Não viu ninguém.


Levantou-se e arrumou a cadeira em que tinha estado sentado, debaixo da mesa. Pegou no chá fumegante que bebericava naquela tarde solarenga, olhou em redor uma vez mais (pertenceria aquele livro a alguém e o dono estaria a observá-lo?), pegou no livro e colocou-o debaixo do braço, preso no sovaco direito. Dirigiu-se para a esplanada do café. A mesa a que se sentou erguia-se junto ao pilar que ajudava a suportar as arcadas da fachada do prédio. O seu novo assento deixava-o de costas coladas ao pilar, de frente para o rio, com vista privilegiada a toda a sua volta. 

Eliseu não estava confortável em mexer naquele livro, nem com a situação, nem consigo mesmo. Escolhera um lugar que impossibilitasse a surpresa à retaguarda, aproveitando-se alguém do seu ângulo morto de visão. A razão por que o fez nem ele próprio a conhecia. Olhou de novo em seu redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra, como se alguém se interessasse pelos interesses de um velho homem num velho livro. Já tudo na sua ação era inconsciente, irrefletido, a roçar a paranoia. 
Então leu, abriu de novo o livro poeirento de capa velha e roçada e leu. 

Continua...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - segunda parte

... continuação

Eliseu olhava o livro. Parecia-lhe que ele causava alguma espécie de atração sobre si, uma atração que suplantava todos os pensamentos de rejeição àquele velho livro que lhe cruzavam a mente. Apesar de o seu pensamento tecer considerações pejorativas que formavam um juízo negativo sobre o livro, o seu olhar não conseguia não repousar sobre ele. Era um livro misterioso, velho mas misterioso, misterioso porque velho. Eliseu olhava-o. Olhou-o até se conseguir levantar da cadeira, mover-se até à mesa onde o livro se encontrava e lhe deitar a mão. Então segurou-o. Eliseu mexeu-lhe, folheou-o, cheirou-o, tossiu com a asma a dar de si. Eliseu era velho, tão velho quanto aquele livro. 

Eliseu estava gasto, tão gasto quanto aquele livro, tão roçado pela vida, tão comido pelo sol. Os anos tinham passado e com eles vieram as dores, o ranger dos ossos, as maleitas múltiplas que acusavam as múltiplas vivências. Sentou-se de novo no lugar que era seu apenas pela ocasião de se ter ali sentado primeiro que qualquer outra pessoa naquela tarde e leu. O livro rangeu ao abrir, tal como rangeu a anca de Eliseu ao sentar-se na cadeira. Segurava as páginas com cuidado, a medo, como se o papel se fosse desintegrar ao toque da pele ensebada e engrossar a poeira que jorrava de entre as mesmas. 

Eliseu segurava-o muito direito, pousado em cima da mesa, e manuseava-o com extremo cuidado e interesse. A cada virar de páginas servia a ponta do polegar e do indicador para segurar a pontinha da folha e o mindinho, esticado, para indicar a cautela da operação. O interior, esse, era aborrecido. As letras que enchiam as páginas amareladas e bolorentas formavam palavras chatas e compridas, daquelas que já não se usam, daquelas que já nem sabemos o significado, palavras que se regem por outras leis, outras ortografias. 

Continua...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - primeira parte

O livro poeirento de capa velha e roçada estava em cima da mesa mesmo no centro do café. Eliseu olhou-o. A tinta que dava forma às letras da capa estava sumida, gasta pelos anos de uso, tantos quantos tinha aquele livro - adivinhavam-se muitos e longos. Os cantos das páginas eram arredondados, não por qualquer opção editorial ou estética publicitária mas pelo envelhecimento natural do papel, pelo roçar dos cantos nas pastas de cabedal, e depois nas mochilas de tecido e também nas estantes de madeira e de metal pelas quais tinha passado. Era velho, usado, antigo. Era poeirento e comido, pelo sol claro está. A capa castanha, como se usava no seu tempo de publicação, conferia-lhe um ar pesado, aborrecido até. Fazia-se adivinhar que no seu interior as letras formavam palavras chatas e compridas, daquelas que já não se usam, daquelas que já nem sabemos o significado, palavras que se regem por outras leis, outras ortografias. Adivinhava-se também que a junção dessas palavras formava uma história sem interesse, um relato impercetível de uma vivência estranha e invulgar, como já não há nem pode haver. As histórias perdidas no tempo que já não é presente e que, por isso mesmo, já não têm lugar no mundo de hoje, no mundo que já não é o mesmo e que fechou as portas aos modos antigos de fazer, e de ser. Eliseu olhava-o. Pensava que ali não iria encontrar nada de interessante, nada digno do esforço da leitura, nada que o enriquecesse. O livro poeirento de capa velha e roçada repousava no tampo da mesa no centro do café, quase como se estivesse perdido e desejasse ser encontrado. Estranho pensamento, um livro não tem desejos, vive à mercê dos acontecimentos que resultam do desejado por outros. 

Continua...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Aos escritores

No topo digladiam-se. Entretêm-se os comandantes em jogos de poder, combatem-se em jogadas palacianas. E nós que assistimos a partir da base, território que nos pertence. Esquecem-se os chefes que comandam o povo, lembra-se o povo que tem nas mãos o poder, aquele que preenche os jogos. E as mesas começam a virar: manifestos aqui, encontros acolá... Os que comandam estão entretidos em birras sem nexo e decisões sem fundamento, cá em baixo, o resto das gentes está a acordar, está a mexer. Subitamente compreende-se que o livro é o do escritor e depois do leitor, que o livro só existe nesta interação, que escrever ainda é uma arte... E começamos a sair para a rua. Tempos perigosos estes que vivemos…

sexta-feira, 24 de maio de 2013

I feel an overwhelming love

Alguma vez te sentiste arrebatada pelo amor? Um sentimento irresistível, esmagador, opressivamente libertador. Um sentimento tão perfeito que parece não ser real, não existir…

É tudo meio desfocado porque só penso nisto: Quero-te tanto!